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Dar-se um tempo para si mesmo: mergulhar na interioridade

O ser humano necessita de um tempo de silêncio, recolhimento, reflexão. Tempo de reconhecimento de si mesmo. Tudo isso para um encontro sereno consigo mesmo, para uma breve porém significativa interiorização, como diz Santo Agostinho ( 354-430): “Deixa sempre um pouco de espaço para a reflexão e também um pouco de espaço para o silêncio. Entra em ti mesmo, deixa atrás o barulho e a confusão . Mergulha na tua interioridade e trata de encontrar esse doce cantinho escondido da alma onde possas estar livre de barulhos e argumentos, onde não necessitas discutir consigo mesmo para provar que sempre tens razão, e que estás certo. Escuta a voz da verdade em silêncio, para que possas entende-la” (Sermão 52, 19, 22).
Dar-se tempo para si mesmo significa dar-se atenção (attentio) vem de atender (attendere) e significa orientar o espírito e a mente para aquilo que vem. O que pressupõe a vigilância e de entender-se. É exercitar a atenção sobre si mesmo, ou seja, colocar em prática uma ética da atenção como diz a filósofa francesa Natalie Depraz.
Dar-se um tempo para si mesmo implica olhar o tempo de um outro modo, a partir da compreensão que o tempo é uma dádiva. É dar-se por inteiro , sem esgotar o esgotar e sem se esgotar. É entender e sentir que nossa condição temporal nos é dada. É compreender quais são os espaços significativos da vida. Essa ética da atenção exige também uma atenção ao próximo.
Esse olhar para si mesmo e para o outro exige um aprendizado do olhar em profundidade. A atenção traz sensibilidade para aquilo que vêm do interior ou do exterior. É atenção à vida!
Os ritmos da vida, os compromissos, as múltiplas coisas a fazer, os ritmos que nos parecem inderrogáveis, todas estas realidades devoram-nos o tempo e infelizmente deixamos de lado o tempo para as coisas gratuitas e essenciais. Porém falta o tempo para nos encontrar a nós mesmos e aos outros. Dar-se tempo e não ter medo da lentidão. Dar-se tempo implica não fazer aquilo que os outros fazem, sentir que se existe, saborear o instante. Infelizmente para muitas pessoas dar-se tempo é angustiar-se, enquanto fazer muitas coisas tranquiliza.
Dar-se tempo é uma pausa fecunda para viver, sentir, fazer de outra maneira. É resistir a pressa que sufoca, é encontrar tempo para se colocar as grandes perguntas, que nascem do silêncio e da interioridade. São perguntas que nos habitam em profundidade que porém no cotidiano agitado são impedidas que brotarem. Essas perguntas fazem parte da vida interior, podemos responde-las ou não.
Dar-se tempo e coração, de reservar um espaço para si mesmo! Não podemos ser distraídos em relação a nós mesmos e ao próximo, pois significa distração da vida. No tempo cada momento é único , pelo que, nenhum momento pode ser substituído por outro.
Prof. Dr. José Pereira da Silva







  • Fontes: PROFESSOR DR. JOSÉ PEREIRA DA SILVA