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A FELICIDADE E A AURO-REALIZAÇÃO

A felicidade, a auto-realização nãoA é um fim em si mesma; a pessoa deve evitar considera-la como algo absoluto. Ela é, antes, a consequência, vinda como acréscimo, da realização de valores superiores (amor, justiça, verdade, compaixão, família, serviço ao outro, o amor de Deus etc) aos quais a pessoa se dedica. A felicidade está relacionada a capacidade de suportar e lidar com o inesperado da vida.
Quando se pensa na felicidade na modernidade ela se tornou quase um direito de natureza e um imperativo moral.
O homem é mais que o homem. Ele se realiza ao superar-se. Deve unificar seu ser na busca de um ideal nobre, percebido por sua inteligência.
Uma pessoa quando é feliz, jamais será capaz de praticar uma maldade ou nutrir ressentimentos, ao contrário daquele que se sente infeliz e vive amargurado, mal com o mundo, com as pessoas e consigo mesmo.
Dirão que não existe felicidade completa. É certo. Mas também não existe homem e mulher perfeitos. A felicidade a que aludimos e que procuramos alcançar é uma sensação predominante de bem-estar espiritual e que se sobrepõe às vicissitudes da vida. Como disse o escritor e poeta Leonard N. Cohen (1934-2016) : “Existe uma rachadura em tudo. É assim que a luz entra. A imperfeição também ilumina”.
Não se pode definir o que seja a felicidade. Ela varia de pessoa para pessoa. É uma sensação exclusivamente individual. Cada um pode sentir-se feliz à sua maneira. A felicidade não escolhe as pessoas, mas são estas que escolhem a felicidade.
Viver é buscar caminhos. O nosso caminho. O nosso espaço de realização. Nessa procura de nós mesmos, investimos tempo, esforço, energias, talento, criatividade. A vida inteira, quase sempre. Nascemos para a montanha e não para vegetar nas planícies.
Deus não fez o homem infeliz, nem o destinou ao sofrimento. O homem sofre em consequência de suas escolhas, seus pensamentos e seus atos.
O passo mais importante para criar as condições internas propícias para a felicidade é desprender-se do ego, eliminar o egoísmo – a causa principal dos sentimentos inferiores e ruins que atormentam o homem desde a aurora dos tempos.
Quando o ser humano se liberta do domínio de seu ego e se deixa conduzir pelo seu eu espiritual, seus sentimentos negativos e mórbidos são anulados por outros, mais nobres e sublimes, que contribuem para a paz e harmonia internas.
Quando olhamos para o ser humano, vemos um ser desorientado, com muitas informações sem valor e uma sociedade doente e sensível ao extremo. Tudo dói, tudo é motivo de sofrimento! Tudo gera desavenças. Muita gente tentando escapar do que não conseguem lidar.
Infelizmente o ser humano tropeça e resvala para uma vida de decepção, de inquietude e de sofrimento, porque se importa mais com a satisfação de seus desejos materiais do que com os valores espirituais, que trazem o bem-estar e a paz interior.
O cotidiano é o espaço para construirmos a felicidade. Temos que lidar com nosso cotidiano. Esse cotidiano está cunhado por procedimentos sempre idênticos, que se converteram, por assim dizer, em rotina. Essas atividades podem permanecer puramente exteriores. Quando nos decidimos a realiza-las atentamente, elas se tornam um hábito benéfico e, ao mesmo tempo, um símbolo de algo mais profundo. Não confundir prazer com felicidade. A felicidade demanda sentido, tem um caráter permanente. Abarca espaços e âmbitos a que apenas afloram os prazeres sensoriais. A felicidade é sempre uma busca, o sujeito humano constituído pelo desejo, busca algo que nunca completa totalmente.
Aí o cotidiano não é algo vazio, mas um lugar em que pratico e me realizo. Quando fazemos conscientemente aquilo que está para ser feito, exercitamos não só o altruísmo e a entrega, mas também a fidelidade: fidelidade a mim, às pessoas e a Deus. O cotidiano se torna espaço de espiritualidade.
A felicidade implica também saber cultivar certas renúncias, reduzir as pretensões do eu, carregar as dificuldades e as cruzes próprias e dos outros. Desejar o bem dos outros ajuda a descobrir que a felicidade deles é fonte generosa para a própria felicidade.
O escritor Dostoievski( 1821-1881) dizia que o homem ganha sua felicidade e sempre com sofrimento, exige esforço, fadiga. Isso parece uma contradição para a sensibilidade moderna. Uma existência livre do egoísmo, da vilania e da avidez ajuda na estrada da felicidade e contentamento. Ter liberdade e generosidade interiores é abrir a felicidade. É preciso saber e perceber essa felicidade feita de coisas simples e do cotidiano muitas vezes não extraordinário. O romancista e jornalista francês Georges Bernanos (1888-1948) dizia: “ O segredo da felicidade é encontrar a própria alegria na alegria do outro”. A felicidade não pode ser reduzida ao bem-estar individual e numa função individualista. Ela demanda algo mais profundo!
20.02.2026 Prof. Dr. José Pereira da Silva











  • Fontes: PROFESSOR DR. JOSÉ PEREIRA DA SILVA