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A revolta do professor

FALANDO SÉRIO

Quarta-feira passada eu aguardava o Ranza no Bar do Fritz. Havia algum tempo que não conversávamos. Minha vida anda cada vez mais atribulada e ao final da tarde eu queria a minha casa.
Mas nossa conversa também já trazia certa saudade. O Ranza demorava-se e o alemão trouxe-me a primeira ampola de Heinecken.
O ambiente estava como sempre, sentei-me numa mesa lateral, próxima a um grupo de motoristas de ônibus. De repente uma grande algazarra formou-se próximo ao balcão do bar. Um senhor que aparentava uns quarenta e poucos anos começou a vociferar feito um louco recém-saído de um hospício. Era um homem alto com sotaque interiorano e debaixo das barbas ruivas podia-se ver o arroxeado da sua indignação. Assustei-me a aproximei-me para ver o que se passava. O Ranza tinha chegado e o escutava pacientemente. Cheguei ainda mais perto para poder participar daquela discussão. Soube então que seu nome era Armador Peixoto (nome estranho, mas vá lá) e que tinha recém-chegado do sul do estado. Tinha uma cultura que aparentava de grande vivência nas coisas do mundo. Sua revolta era porque, dizia ele, a preguiça tomava dia após dia conta do povo brasileiro. Nesse momento somos interrompidos pelo Fritz que lhe trouxe uma cerveja.
- Vejam bem - disse ele, dirigindo-se a nós, um senador tem dois motoristas cada um com salário maior que um oficial da marinha, isso não é possível. Pergunto, se esse motorista bater o carro o que lhe acontece? E qual a responsabilidade de um oficial de fragata se causar um acidente com o “bote” da marinha, disse ele ao dar um sorriso malicioso. Querem mais? Quanto ganha um ascensorista lá na Câmara em Brasília? Muito mais que um piloto de caça da Aeronáutica. Sabia que há diretor de garagem no Senado? Isso mesmo, diretor de garagem. E com salário maior que o soldo de um General do Exército. Há diretores que nem diretorias têm, mas os salários caem todos os meses na conta. Isto é tudo um país de safados, preguiçosos, vagais mesmo. Lá no interior um aluno meu chegou ao cúmulo de me dizer que não adiantava estudar. “Fessor, pra quê estudá si o Neymar está milionário e é quasi analfabeto”? Pensam que acabou, disse ele após dar um generoso gole na cerveja. Um “aspone”, para quem não sabe assessor de porcaria nenhuma, de ministro do STF ganha mais que um professor cientista e pesquisador da Fundação Osvaldo Cruz, descobridor de vacinas que salvam vidas. Um médico recebe do SUS menos de sessenta dólares por uma cirurgia cardíaca. Menos do que ganha um motorista da Câmara Federal, por hora.
Nesse instante eu o interrompi e perguntei qual era a sua profissão.
- Professor universitário, disse o Ranza antecipando-se ao Peixoto (que era como anunciara que gostava de ser chamado).
- Exatamente, eu era professor universitário em Criciúma, minha cidade natal.
- E o que o trouxe a Joinville? Perguntei insistente.
Peixoto dá o último gole no seu copo de cerveja, coloca o dinheiro para pagar no balcão, sorri e responde:
- Nas últimas eleições ajudei a eleger um deputado aqui da região. Em troca ele me nomeou para uma gerência na Secretaria Regional aqui do norte do Estado, e como não tenho cargo definido, mudei para Joinville. Fico em casa o dia todo sem fazer nada.
Peixoto pousou o copo, despediu-se alegremente e seguiu seu caminho para casa. Ou seria seu emprego?
Eu e o Ranza sentamo-nos atônitos e conversamos sobre o incêndio na Austrália até a hora de ir embora.
Henrique Chiste Neto







  • Fontes: HENRIQUE CHISTE NETO

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